Carlos Drummond de Andrade

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Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: "Meu Deus!".
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: "Meu amor".
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinha, a luz apagou-se,
mas na sobra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo,
e ele pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda...

Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
***
Carlos Drummond de Andrade, Antologia poética, Record, 1962

* * *

"O degrau da escada não serve simplesmente para que alguém permaneça em cima dele,
destina-se a sustentar o homem pelo tempo suficiente para que ele continue sua subida."

(Thomas Huxley)

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