Quem pagará o enterro e as flores...
Agora que a tempestade amainou e as coisas voltam ao normal, preciso compartilhar o sentimento de surpresa dos últimos dias. Não em relação aos ataques covardes e violentos, pois eram previsíveis diante do quadro de crescente violência e estruturação do crime organizado. Tampouco a morte de policiais surpreendeu, pois em nossa profissão conhecemos e aceitamos este risco, embora seja inquietante saber que muitas poderiam ser evitadas. Não surpreendeu também a resposta oportunista e limitada que a classe política desenha para safar-se da crise e suas responsabilidades. Surpreendeu que pela primeira vez os policiais militares foram vistos com um lampejo de humanidade. Nada muito enfático nem duradouro, mas pela primeira vez os homens e mulheres que integram as fileiras desta instituição receberam uma pequena e tímida manifestação de solidariedade. Não surpreendeu a rapidez com que este momento passou. Pouco depois vemos enfatizar o absurdo de algumas das mortes, relegando novamente a morte dos policiais ao anonimato frio dos números. Como se não fosse um absurdo matar um policial em seu posto de serviço, em uma base comunitária, símbolo da parceria e solidariedade que acreditamos estar construindo. Policiais Militares são pagos para morrer? Onde estão as passeatas de solidariedade e as manifestações de intelectuais? Onde está o povo que enche nossas reuniões comunitárias e se socorre de nossa solidariedade quando toda assistência do Estado falha? Não percebem que também somos vítimas de sucessivas gerações de especialistas, cientistas, pensadores e políticos que neste momento vão à mídia como se estivessem chegando agora! Como se não tivessem responsabilidade pelos erros que transformaram a segurança pública em um sistema caótico e confuso nas últimas décadas.
Digo então o que poucos disseram. Policiais são heróis, e salvam vidas. São heróis quando morrem, e mais heróis ainda quando abandonam suas famílias e retornam para seus postos de trabalho onde defendem aqueles que não os enxergam nem prezam. E por isso exalto a grandeza deste gesto, impagável em termos financeiros, repetido cotidianamente e engrandecido pelo momento de crise. Rendo tributos a esta atitude nobre, porque sei que a move um profundo amor pela profissão, pelo dever, pela corporação e pela sociedade. Nada de atestados médicos ou desculpas esfarrapadas. Apenas as ruas repletas de policiais muitas em seus horários de folga, a maioria voluntária, todos prontos para o que der e vier. Mas e o retorno, valerá a pena? Quem pagará o enterro e as flores?
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