Revista Época: Cenas Brasileiras

Uma bomba aki

Foi sob esse título que circularam pelo Orkut fotos de uma garota do interior paulista com dois homens.
Um mês depois, para ela a bomba ainda não parou de explodir

Eliane Brum

'Nunca vou esquecer. Me xingaram de vagabunda. Não sentia o corpo, tremia. Só via as bocas se mexendo, gritando'
Francine Favoretto de Resende, estudante de Direito da Univem, em Marília, foi cercada por 300 estudantes depois que fotos com supostas cenas sexuais se espalharam pela internet

Francine Favoretto de Resende ouvia música no rádio. Sua mãe, Rose, conversava com clientes na loja de presentes que abriu há 13 anos, desde que se aposentou como diretora de escola. O pai, Ércio, destrinchava o Imposto de Renda de amigos no escritório em que advoga há 41 anos. Era 11 de abril e fazia sol em Pompéia, a 470 quilômetros de São Paulo. Chamada de 'cidade-coração, por ser carinhosa e hospitaleira', a localidade abriga 18 mil habitantes em torno da igreja matriz. Naquela tarde, que parecia igual a tantas outras, uma rede invisível ia aprisionando a família. Sem que adivinhassem, centenas de pessoas - que depois se tornariam milhares e por fim milhões - espiavam pelo site de relacionamentos Orkut, na internet, uma série de fotos em que Francine, de 20 anos, aparecia nua, fazendo sexo com dois homens: Fábio Avelar, de 30, e Lincon Ferreira, de 23. Como disse a escritora americana Joan Didion em seu último livro, O Ano do Pensamento Mágico: 'A vida muda rápido, a vida muda num instante, você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente'.

Francine ouvia rádio. Sua mãe vendia presentes. O pai calculava o Imposto de Renda. E o mundo via Francine nua. A bomba que destruiu a delicada teia de atos rotineiros da família Resende foi detonada pela simples pressão de um dedo indicador - ainda anônimo - sobre a tecla enter do computador. Encobertas pelo anonimato, pessoas a atacaram violentamente nos dois mundos - o virtual e o real. Um mês depois do 11 de abril em que uma das ferramentas tecnológicas mais fantásticas já criadas - a internet - foi colocada a serviço do sentimento mais arcaico - o preconceito -, a vida que eles conheciam acabou.

Por que, diante de mulheres nuas estampadas nas bancas de jornais e cenas de sexo exibidas nas novelas na hora do jantar, Francine foi agredida com tamanho ódio? 'Todo mundo sabe da diferença entre o real e a fantasia. A TV e as capas de revista são pura fantasia. Quando essas imagens são protagonizadas por pessoas comuns no interior do interior, então fica real', diz o psicanalista e escritor Mário Corso. 'A história é contada como a mulher que transou com dois homens - e não como os dois homens que transaram com uma mulher. É dar à mulher o papel mais tradicional, de guardiã das virtudes, mas é bem mais que isso. De que a culpam? De ter corrompido dois homens, ter colocado dois homens na mesma cama.'

A sociedade que condenou Francine é a mesma que transformou Bruna Surfistinha numa celebridade instantânea. O livro com o relato das experiências sexuais da menina de classe média que virou garota de programa se tornou um best-seller, há 26 semanas na lista dos mais vendidos. Mas Bruna coloca-se no lugar de prostituta - sua profissão -, tornando tudo mais seguro e palatável porque distante. Fica implícito que transar com dois homens é algo que ela fazia antes, quando era garota de programa, e não faria mais hoje, ao se tornar uma mulher casada.

No caso de Francine, ela traz a fantasia sexual para perto, para o campo das possibilidades. Por isso se torna incômoda e precisa ser acusada do que não é, prostituta. A 'acusação' a leva novamente para longe, ao lugar para o qual os recalques sexuais são empurrados. Por essa razão, também, no suposto ménage à trois Francine é a mais punida. 'Duvido que alguém tenha chegado ao Fábio ou ao Lincon e dito que eles não prestavam, que acabaram com a vida da menina', diz Francine. 'Por ser mulher, a sociedade sempre vai lembrar do meu nome, e não do deles. Isso me revolta.'

Francine recebeu a reportagem de ÉPOCA com um cachecol enrolado no pescoço. Não estava tão frio. Mas nada poderia ser menos nu que um pescoço coberto. Era essa a imagem que ela escolheu exibir no momento de contar a dor de ter sido despida para o mundo. Ambas, mãe e filha, estavam vestidas com elegância e maquiadas com cuidado. Tentavam resgatar a imagem de representantes de uma família tradicional de Pompéia, com uma folha corrida de serviços prestados à comunidade. Tudo, na sala da casa ampla e antiga - e em suas donas -, gritava: 'Somos uma família de bem'. Francine e sua mãe estavam prontas para posar para o retrato que as redimiria.

Ao vivo, Francine é bem mais bonita que qualquer foto - montagem ou não. Fala com desenvoltura, voz ainda de menina e o sotaque do interior ä paulista nasalando o ponto final das frases. Há, porém, uma tensão entre mãe e filha tão presente quanto uma terceira pessoa. Rose não admite que uma mulher saia com um homem casado. Francine diz - muitas vezes - que não tem nenhuma espécie de preconceito. Provar que as fotos foram montadas é a questão crucial naquela sala de estar.

A vida que Francine conhecia começou a terminar quando ela diminuiu o volume do rádio para atender um telefonema do namorado no fatídico 11 de abril. Ele avisava que havia fotos e xingamentos no Orkut. Como a empresa na qual trabalha, em Campinas, proibia o acesso ao site, ele havia sido alertado pela irmã, mas desconhecia o conteúdo. A garota correu para a lan house mais próxima, porque o computador de casa tinha o modem queimado. 'Só vi uma foto, em que eu estava nua, em pé. Não consegui ver mais. Saí correndo e chorando pela rua. Corri para a minha mãe', diz ela. Rose viu a filha entrando pela porta da loja, aos prantos, mas não entendia o que estava acontecendo. 'Ela só chorava, não conseguia falar', afirma. Francine levou a mãe até o escritório do pai. 'Ela foi logo dizendo que era montagem', afirma Ércio.

'Desabou o mundo. Quero vender a loja e ir embora. Tenho vergonha. Sempre fui honesta. Agora fomos rotulados. Mas vou limpar o nome da minha filha' A mãe, Rose de Resende (ao lado de Francine)

No primeiro dia, Rose e Ércio não viram as fotos. Apenas souberam que existiam. Rose nunca usou computador, nem sequer sabe ligá-lo. Ércio jamais navegou na internet. Aos 70 anos, usa o PC do escritório apenas para digitar petições. Por isso, nenhum dos dois foi capaz de imaginar que, na noite em que se viravam na cama sem conseguir dormir, literalmente no outro lado do planeta, no Japão, havia gente vendo sua filha fazendo sexo e ligando para os conhecidos em Pompéia para saber se era verdade. Antes de ser eliminadas, as páginas no Orkut de Francine e do namorado acumularam quase 10 mil mensagens, a maioria delas com toda a sorte de variações das palavras 'corno' para ele e 'vagabunda' para ela. Era o primeiro linchamento moral de Francine. Nessa primeira noite, Francine, estudante que fica arrasada quando tira notas ruins, não foi à faculdade onde cursa o 3o ano de Direito. Diz que só chorava.

No dia seguinte, 12 de abril, o telefone tocou na casa da família. Era Flávia Avelar, de 27 anos, mulher de Fábio. Rose atendeu. 'É aí que mora a menina das fotos na internet?' Na noite anterior, perto da meia-noite, Flávia recebera um telefonema anônimo. Tomou um banho e saiu. Perto da Sociedade Recreativa de Pompéia, segundo contou à polícia, encontrou 'três ou quatro homens numa caminhonete prata'. Um deles entregou-lhe as fotos da internet impressas em papel. Rose combinou encontrar-se com Flávia no escritório de advocacia do marido. Meia hora mais tarde, os pais de Francine viam as imagens pela primeira vez. 'Foi violento, daquelas coisas que deixam a gente sem ar', diz Ércio. 'Foi terrível olhar. Eu nunca tinha visto fotos desse tipo. Quem estava nas fotos era minha filha. Pelo amor de Deus, o que é isso? A Francine chorava e repetia que não era ela', afirma Rose.

Nessa noite, quando saiu do escritório para encarar a cidade pequena na qual seu pai fundou várias obras e ele dirigiu outras tantas, Ércio chorou no meio da rua. Nenhum outro olhar, diria Francine depois, foi pior que o do pai sobre sua nudez nas fotos. 'Tenho vergonha do meu pai. Quando ele chega perto do meu quarto, já grita antes para que eu esteja vestida', diz ela.

Francine foi à faculdade, a 30 quilômetros de Pompéia. A Fundação de Ensino Eurípides Soares da Rocha, a Univem, fica em Marília, pólo de quase 200 mil habitantes que recebe estudantes de toda a região centro-oeste de São Paulo. Antes de entrar, Rud de Moura, aluno de Administração que embarcara no mesmo ônibus, avisou: 'Seu nome está nos quatro cantos da faculdade. Você sabe que o ser humano é complicado. Se houver algum problema, conta comigo'. Francine respondeu que não devia nada a ninguém e se dirigiu à sala. Nas duas primeiras aulas, nada aconteceu. No intervalo, pouco depois das 21 horas, Francine não conseguiu sair. Cerca de 300 alunos aglomeravam-se pelos corredores. O professor Otávio Custódio de Lima bloqueou a porta para que não invadissem. Os universitários, boa parte deles do curso de Direito, queriam ver 'a vagaba da internet', xingá-la de 'prostituta', avisar que eram 'os próximos da fila', atirar preservativos, empunhar cartazes de 'tire aqui a sua senha'.

Dentro da sala, Francine chorava, apoiada por colegas. 'Eu não sentia meu corpo', diz ela. Rud viu a turba e foi um dos poucos a ter coragem de enfrentá-la. Disse ao professor que era parente e entrou na sala para amparar Francine. 'Fui porque era desumano, ninguém tinha o direito de sair atirando pedras. Tive o apoio da minha namorada. Faria o que fiz por qualquer pessoa. Consigo me colocar no lugar do outro', afirma.

Chamaram a polícia. 'Não saia de cabeça baixa. Você não deve nada a ninguém', disse Rud. Ele acompanhou Francine até a delegacia e avisou a mãe da estudante. Ela conseguiu deixar a sala e vencer as centenas de metros que a separavam do lado externo do prédio graças a bombas de gás pimenta atiradas pelos policiais para abrir espaço. 'Eu me senti pequenininha. Só via as bocas mexendo e mexendo. Não ouvia. Só queria sair dali', diz. Foi o segundo linchamento moral. Uma estudante disse a ÉPOCA, acreditando que assim minimizava a violência: 'Ela não seria linchada, ninguém ia agredi-la fisicamente. Se a polícia não chegasse, no máximo ficariam passando a mão na bunda dela'.

Francine não foi a primeira nem será a última. Logo depois dela, outra garota do interior paulista teve fotos divulgadas na internet. A rede permite que a fofoca da cidade pequena assuma os contornos do mundo a um toque do mouse. Bloquear imagens como essas ainda é um desafio para os provedores, e punir os crimes com mais rigor uma tarefa urgente para os legisladores. A série de 12 fotos de Francine era apresentada como 'uma bomba aki'. O texto se referia à filha de 'um advogado conhecido por todos na cidade'.

Com a rede, a mais tacanha fofoca, tão antiga quanto o tempo, foi amplificada em algumas horas. Segundo a polícia, houve pelo menos 20 milhões de acessos em diversos países. Mais de mil vezes a população de Pompéia. 'Eu sempre falei para a Francine tomar muito cuidado para não cair na boca do povo, porque o dia que cair ninguém mais esquece. Mas a que boca do povo eu me referia? Ao nosso pessoalzinho que conhece a gente', diz Rose. 'Minha filha não caiu na boca do povo. Caiu na boca do mundo. A internet é uma arma com um poder sem volta.'

Ao contrário da fofoca de vizinho, porém, em que para passar a maldade adiante é necessário mostrar a cara, a internet permite que o maledicente se mantenha oculto. Aquele que tenta manter uma imagem pública politicamente correta, ao se esconder sob o anonimato virtual revela sem freios o pior de si. A internet abre as portas da miséria humana ao permitir que cada um mostre - sem se mostrar - o seu Mr. Hyde, embora se apresente ao mundo como Dr. Jekyll. 'Eu mesma passei as fotos para várias pessoas. Ela é uma safada - e com aquela cara de santa. Eu não transaria com dois caras, não acho certo. Um homem até pode escorregar, uma mulher não', diz uma garota de Pompéia, de 21 anos, nível universitário. 'Agora está posando de vítima. Uma pessoa normal, que tem sua dignidade, não faz o que ela fez. A única solução para ela é sair da cidade.'

A história de Francine torna-se única porque ela foi moralmente linchada não apenas pela internet. As fotos teriam sido feitas em novembro de 2004 por Lincon, com a câmera de Fábio. Segundo o delegado Válter Bettio, da Delegacia de Pompéia, Lincon teria apostado em um bar com um amigo, Régis Zapparolli, que faria as fotos com Francine. A garota afirma que as fotos são falsas. Fábio diz que são reais. Lincon assinou um depoimento afirmando que é montagem. Para o delegado, disse o contrário. Bettio afirma se sentir constrangido com a situação. 'Encontro as famílias envolvidas na missa', diz. 'Fico entre a cruz e a espada.' Ele mesmo só usa a internet para conferir as notícias da associação de delegados. 'Foi muita maldade', repete. A imprensa não o deixa em paz, o telefone toca o tempo todo, ele atende todos os repórteres com gentileza e abundância de detalhes.

Interessa a alguém saber quem diz a verdade sobre as fotos? Não. A vida privada é, como já diz a palavra, privada. O ato de torná-la pública à revelia é crime. O assustador no caso de Pompéia é que as vítimas foram condenadas e punidas por delitos que inexistem no Código Penal. 'Fizeram com ela um julgamento sumário, foi uma inquisição. Quebraram todas as regras do Direito', diz Marco Antonio Manna, do diretório acadêmico do curso na Univem. O presidente do diretório, Antonio Carlos Sojinha, chegou a ser procurado por estudantes que lhe perguntavam se Francine não seria expulsa por ter comprometido a imagem da universidade. 'Tem de expulsar é quem está atuando de forma inquisitória num estado de direito. São pseudo-estudantes', afirma Luiz Albertoni, vice-presidente.

A reitoria da Univem, que realiza uma sindicância para identificar os responsáveis, não quis falar sobre o assunto e proibiu os professores de dar entrevistas a ÉPOCA. O diretório acadêmico lançou duas circulares condenando o 'linchamento moral' da estudante na tentativa de despertar os futuros advogados, promotores e juízes que em breve estarão nos fóruns e tribunais do país. 'Devemos nos questionar enquanto adultos e cidadãos (...). Somos realmente formas evoluídas de coexistência e diferenciada de um hominídeo de 1 milhão de anos atrás?', questionava o manifesto. ä

Em apenas um mês a vida de todos os atingidos pela violência mudou. A vida que eles conheciam acabou. Francine foi abandonada pelo namorado, dorme com tranqüilizantes e só sai para ir à faculdade. 'A vida agora é outra. Quando olham para mim na rua, parece que estão me vendo sem roupas. Não consigo chegar perto do computador porque me sinto nua', diz. 'Não vou mais levar uma vida normal, mas estou tentando viver. Nunca vou conseguir esquecer. Mas vou mostrar para essas pessoas que não conseguiram acabar comigo.'

Ércio, o pai, estuda livros sobre crimes na internet, vai acionar os responsáveis após a conclusão do inquérito e prepara um processo contra o Google, dono do Orkut: 'Até hoje me sinto numa jaula, todo mundo me olhando com curiosidade. Olham para mim como se fosse um bicho no zoológico. É deprimente, mas vou superar'.

Rose, a mãe, não sai mais de casa. Diz que vai vender a loja de presentes que tanto ama e que pretende deixar a cidade. 'O mundo desabou para mim. Quero ir embora, tenho vergonha por ser uma pessoa tão correta, tão honesta e ter a imagem da minha filha daquele jeito divulgada para o mundo inteiro. Foi um mal tão grande que não vai ter o que pague. Fomos rotulados', afirma. Obrigou-se a examinar foto por foto com a filha. Passa os dias dentro de casa colecionando indícios de que as imagens são falsas. Um sapato rosa que não pertence a Francine, um cabelo que não coincide com a data em que as supostas fotos foram feitas, uma pinta que não estava lá. 'Quero provar que foi montagem, vou limpar o nome da minha filha', afirma.

Flávia, a mulher de Fábio, chegou a pedir a separação, mas depois se arrependeu. Sua filha mais velha, de 11 anos, sofreu imensamente com as piadinhas dos colegas na escola. Fábio perdeu o emprego de 13 anos e as aulas de Mecânica que dava à noite. Está desempregado. Lincon, segundo o pai, o comerciante Ubirajara Ferreira, de Cabrália Paulista, 'está escondido num sítio até que tudo se acalme'. O pai planeja transferi-lo para Curitiba. Lincon será indiciado pela polícia por injúria e difamação porque mostrou as fotos a amigos e gravou com elas um CD. O delegado Válter Bettio ainda procura quem acionou a tecla enter do computador.

LINCHAMENTO MORAL

Os alunos da faculdade de Francine se aglomeraram na porta da sala um dia depois da divulgação das fotos (à esq.). Ela só conseguiu sair escoltada pela polícia (à dir.)

Futuro interrompido
Eliane Brum

Um dos homens das fotos foi demitido na empresa em que trabalhava havia 13 anos

A DOR DOS PAIS
Eurípedes e Fátima viram a carreira do filho ser destruída

As paredes da sala da casa de Eurípedes Avelar, de 69 anos, têm retratos da família e gravuras de passarinhos. Na única fotografia em que ele aparece, está com o imigrante japonês Shunji Nishimura, fundador da Jacto, indústria de máquinas agrícolas que ocupa uma área de 150.000 metros quadrados do território de Pompéia. Na estante, um troféu em forma de trevo, símbolo da empresa, o homenageia pelos 40 anos de serviço. A Jacto envolve - direta ou indiretamente - mais da metade da população da cidade. Eurípedes é um dos funcionários mais antigos em atividade e talvez o mais querido. Há 12 anos aposentado e no segundo mandato como vereador, dá aulas como instrutor na Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia. Começou na Jacto aos 15 anos, como faxineiro. Tem mais anos de empresa que de casamento.

As paredes da sala espelham sua vida. O fundador da Jacto aparece ao lado dos netos porque é parte da família. Por isso, quando o filho de Eurípedes, Fábio Avelar, de 30 anos, foi demitido do cargo de projetista industrial, que ocupava desde os 17 anos, o pai não protestou. Fábio foi afastado em férias compulsórias por dez dias, de 20 a 30 de abril, logo depois que o episódio das fotos começou a ser estampado primeiro pela imprensa regional, depois no país inteiro. 'Os comentários sobre as fotos eram muito fortes, imagina como estava a cabeça dele. Decidimos dar férias para que pudesse resolver as coisas com a família', diz Lélio Afonso Costa, gerente de Recursos Humanos da Jacto. Ao voltar das 'férias', em 2 de maio, Fábio foi demitido. 'Não teve nada a ver com as fotos. Outros três funcionários foram despedidos no mesmo dia, estamos demitindo desde o ano passado por causa da crise na agricultura', afirmou Costa.

Não há nenhum computador na casa de Eurípedes. Mesmo assim, seu nome e o do filho atravessaram o mundo e alcançaram o Japão. O internauta anônimo que publicou as imagens na rede escreveu ao divulgar as fotos: 'O cara mais carequinha é Fábio Avelar, filho de Eurípedes Avelar, um vereador da cidade muito conhecido. E detalhe: o Fábio é casado!!!'. Quando soube, Eurípedes avisou a mulher, Fátima: 'O vulcão entrou em erupção'. Reuniu o filho e a nora: 'O momento é de união. Vocês têm duas filhas e ninguém vai gostar mais delas do que vocês'.

Flávia desistiu da separação. 'Teve até aposta na cidade de que ela ia me largar. Mas vamos dar a volta por cima', diz Fábio. Ele iniciava a entrevista a ÉPOCA quando Flávia chegou em casa. Proibiu-o de seguir falando. Abatida, ela luta ferozmente para proteger suas filhas, a família. Fábio lhe obedece com o fervor de quem ganhou uma segunda chance. 'Não quero falar, nem que ele fale. Essa história já teria morrido se não fosse a mídia', diz. 'Por ser uma cidade pequena, a gente paga muito caro. Só queremos que isso acabe. Agora é outra vida. E a dor é nossa.'

Eurípedes salvou o casamento do filho, mas não pôde fazer nada pelo emprego. 'Quando ele precisava de calor, veio o frio. Não achei justo, porque o fato não aconteceu no espaço da responsabilidade, aconteceu fora', diz o pai. 'Mas não posso culpar a empresa. Ela precisa manter o lado social dela.' Fábio, que foi um aplicado aluno do pai, também perdeu as aulas que dava na fundação. 'Ele não tinha condições de ficar, há muitas meninas na escola. A sociedade não está preparada para lidar com certas coisas', diz um funcionário graduado.

Se o desemprego é terrível em qualquer canto, em Pompéia ser demitido da Jacto é ainda pior. Fábio vai precisar procurar trabalho em outra cidade. 'Agora é hora de levantar a cabeça e caminhar', diz Eurípedes. Depois envergou todo orgulhoso o uniforme da Jacto, se despediu e foi trabalhar.


--
   "Deus não escolhe os capacitados...
      ...Capacita os escolhidos"

                    Claudia Bohrer

Visitem:

http://guerreiradapaixao.blogspot.com/

http://www.claubohrer.gigafoto.com.br/
ou
http://www.flog.0br.net/claubohrer/

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog