"" AS CHUTEIRAS SEM PÁTRIA "" - Arnaldo Jabur

Por um amigo muito ESPECIAL.:DENYS KETO 
 
 
"" AS CHUTEIRAS  SEM  PÁTRIA ""  - Arnaldo Jabur
 
Quando chega um fax com barulhinho de cornetas celestiais, eu já sei: é carta do Nelson Rodrigues.
Não deu outra.
 Nelson me pedia para publicar um texto sobre a Copa, já que está sem contato nas redações:
Eu sou do tempo do Pompeu de Souza, do Prudente de Morais Neto...
 Não conheço esses meninos da redação......
 Muito bem, aqui vai seu comentário sobre o sábado da desgraça:
'Amigos, a derrota é um grande momento de verdade.
Só diante da vergonha é que entendemos nossa miséria.
Num primeiro momento,queremos encontrar uma explicação para o fracasso, mas fracasso não se improvisa.é uma obra calculada, caprichada durante meses, anos até.
Não adianta berrar no botequim que o Parreira é uma besta ou que o Ronaldo é um gordo perna-de-pau.
Não.
 Nosso fracasso começou antes, pq esta seleção ñ foi a pátria de chuteiras; foram as chuteiras sem pátria.
 
Para nossos jogadores ricos e famosos, o Brasil é a vaga lembrança da infância pobre, humilhada.
O País virou um passado para os plásticos negões falando alemão, francês, inglês, todos de brinco e com louras vertiginosas.
Não são maus meninos, ingratos, não; mas neles está ausente a fome nacional, a ânsia dos vira-latas querendo a salvação.
O povo todo estava de chuteiras, para esquecer os mensalões e os crimes, mas nossos craques não perderam quase nada com a derrota; tiveram apenas um mau momento entre milhões de dólares e chuteiras douradas pela Nike.
 
Isto me faz lembrar o grande Nenen Prancha do Botafogo:
"'Temos de ir na bola como num prato de comida!...'"
 Que frase profunda, esquecida hoje...
Nosso time come bem e nem os jogadores, nem os técnicos, nem os roupeiros e massagistas viram o óbvio, ali, uivando, ululando nos vestiários: o time estava sem conjunto, os jogadores estavam presos a um esquema tático que contrariava suas vocações.
Só o povo berrava: "'Ronaldo está gordo,Ronaldinho tem de atuar mais livre, os jovens têm de jogar mais !' !
E,quanto mais o óbvio se repetia, mais o Parreira se obstinava em sua lívida teimosia... Por quê ?
Porque o técnico é sempre contra a opinião geral.
Em vez de orientar as vocações dos rapazes, ensinando-lhes a liberdade, acoragem e o improviso, o Parreira achou que todos têm de caber em sua estratégia. O pior cego é o surdo.
 E jogador brasileiro não gosta de lei nem de planejamentos; quer inventar sozinho.
 
O técnico devia ser um reles treinador, quase um roupeiro, humilde diante dos craques.
Mas, o Parreira parecia um 'Mussolini' de capacete e penacho.
Teve vários sinais de tirania: só dava a escalação no vestiário, com os jogadores desamparados, na insônia da dúvida da convocação, não teve coragem de barrar as estrelas, como se isso fosse uma afronta ao passado e às multinacionais.
Ronaldo fez gols, tudo bem, mas foi 1 âncora pesada desde o início, em torno do qual os problemas giraram.
 Parreira ficou com medo dos jovens e eu via em seus rostos o desespero do banco.
Robinho arfava de rancor e só entrava quando era tarde demais.
Robinho foi o único que chorou no final, ainda menino e puro.
Quem teve a mãe seqüestrada sabe o que é tragédia.
 E, para escândalo do País, Robinho ficou de castigo.
 Ao final de tudo, Parreira disse a frase suicida:"
 'Não estávamos preparados para perder!...'"
Isso é a morte súbita, isso é a guilhotina.
Sem medo, ninguém ganha.
 
Só o pavor ancestral cria uma tropa de javalis profissionais para a revanche, só o pânico nos faz rezar e vencer, só Deus explica as vitórias esmagadoras, pois nenhum time vence sem a medalhinha no pescoço e semave-Marias.
 Mas, Parreira ignorou a divindade e acreditou em si mesmo, com a torva vaidade de uma prima-dona gagá, com pelancas e varizes.
Isso é o óbvio, mas foi ignorado.
E quando o óbvio é desprezado, ficamos expostos ao sobrenatural, ao mistério do destino.
Por exemplo, por que começamos o jogo como um corpo de bailarinos eufóricos e, 15 minutos depois, ficamos paralíticos como sapos diante de cascavéis, com o Zidane dando chapéus até no Ronaldo ?
Será que diante da Marselha sofremos um pavor reverencial
Em 98, Ronaldo caiu em convulsões de cachorro atropelado no vestiário.
E agora ?
Creio que no sábado não estávamos com medo da França,não; o que tivemos foi medo de nós mesmos, voltou-nos o complexo de viralatas, inibidos como vassalos diante do Luís 14, de sapato alto e peruca empoada.
Foi assim em 98 e agora em 2006.
 A França é muito chique para filhos do Capão Redondo e de Bento Ribeiro.
 
Mas, todos sabem que quem ganha e perde as partidas é a alma.
 E a nossa estava dividida entre o match e a linha de passe, entre o show e a vitória.
Houve o episódio da meia do Roberto Carlos, que um segundo antes do gol da França, estava ajeitando a liga como uma madame Pompadour.
Pelé notou o descuido frívolo e trágico, pois guerreiro furioso não conserta a roupa na batalha.
Esse pequeno gesto revelou bastidores de equívocos fatais, teorias e teimosias.
 
Outra coisa que nos matou foi a torcida.
Nunca houve uma torcida tão desesperada por uns minutos de paraíso, de brilho.
 Foi diferente de 1950.
Lá, sonhávamos com um futuro para o País.
Agora, tentávamos limpar nosso presente.
 Explico:
Há um ano, somos uma nação de humilhados e ofendidos,debaixo da chuva de mentiras políticas, violência e crimes sem punição.
Descobrimos que o País é dominado por ladrões de galinha, por batedores de carteira e pelos traficantes.
 Por isso, a população queria que o scratch fizesse tudo que o Lula não fez.
Mas, era peso demais para os rapazes.
 A 10 mil quilômetros, os jogadores ouviam os gemidos ansiosos das multidões deverde-eamarelo, como uma asma patriótica.
 Não esperávamos uma vitória, mas uma salvação.
 Só a taça aplacaria nossa impotência diante da zona brasileira, a seleção era nossa única chance de felicidade.
 Queríamos a taça para berrar ao mundo e a nós mesmos:
 '" Viram ?  Nós brasileiros somos maravilhosos !!!'"
 Mas, não deu.
O POVO , BEM , O POVO CONTINUA SENDO SÓ UM DETALHE .
 
Um abração do amigo de sempre....
 
 
...existem pessoas q estão sempre c preparando p viver,mas,nunca vivem. "
 

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